понедельник, 29 декабря 2014 г.

O tempo parou na Rússia - o país muda a sua pele?

Parece que a festa de Ano Novo é a festa mais integradora para os russos. O Natal não abarca a todos (muitos russos são ateus, muçulmanos, budistas, católicos, judeus). Infelizmente a festa do Dia da Vitória também está perdendo seu brilho por causa do antisovietismo totalitário dos últimos 40 anos, quando os grupos governantes de Gorbachov, a Cabeça Quebrada e de Yeltsin, o Bêbado apagando o passado soviético sem mesmo dar-se conta danificaram o núcleo do inconsciente dos russos: ficou questionada a Vitória. As novas festas, inventadas para substituir as antigas festas soviéticas, ainda não são convincentes para todos. Igual à síntese do grupo de Putin, que tentando combinar os discursos dos brancos e dos vermelhos, obviamente continua sendo mais pró-branco. Assim sendo o neutro Ano Novo ficou a maior festa do país.

O Ano Novo na Rússia tem sua tradição, que se formou na época da URSS, mas não tem fortes conotações políticas. O Ano Novo é todo um mistério das saladas e bebidas rituais, certos filmes na televisão (comédias, musicais), cheiro de tangerinas, árvores do Ano Novo (quase não dizemos "árvore de Natal") e a coisa mais importante é o discurso do líder da nação na véspera do Ano Novo. 

O presidente, ou seja, secretário geral do PCUS uns minutos antes do inicio do Ano Novo oferece um breve pronunciamento à nação e logo a gente olha no relógio principal da Rússia, que se encontra na Torre de São Salvador do Kremlin de Moscou, a gente conta os 12 últimos segundos e depois brinda, ouvindo o hino nacional. Comemos as saladas... e a gente corre para escrever os livros geniais, músicas e bailados, poemas e fórmulas matemáticas, para desenhar as armas supernovas, etc.

O Ano Novo é impossível sem o relógio da Torre de São Salvador. Este relógio não só marca as horas e os anos novos, mas também marca as épocas. Assim, no início da época de Pedro, o Grande, o relógio que marcava tempo para o Tsarado de Moscou, foi trocado por um novo relógio, que marcaria passo do tempo para o Império Russo de Pedro.


Se o relógio dos tsares era tradicional, com letras em vez de números (17 letras segundo a máxima duração do dia em verão), o novo relógio do imperador Pedro I já os tem, é um relógio holandês (Pedro modernizou o país ao estilo holandês).

Com Pedro começa o período de São Petersburgo, o alto tempo dos Romanov, quando o país no início do século XX quase virou uma colônia do Ocidente. Na época de Catarina, a Grande um prefeito de Moscou até instalou na Torre de São Salvador um relógio, que cantava a canção alemã "Oh du lieber Augustin"! Que vulgaridade e macaqueamento! Mesmo típico para Catarina II. Como disse Pushkin, "a imperatriz perversa perverteu seu império".

O relógio atual foi feito na Rússia, é do governo de Nikolai I, um dos melhores tsares dos Romanov, que enfrentou o segundo "Maidan" da Rússia - a Revolta Dezembrista de 1825 (o primeiro Maidan foi o Período de Distúrbios de 1598-1612), mas Nikolai I não conseguiu modernizar o país, embora que quisesse disciplinar as elites. Desde Nikolai I o carrilhão duas vezes por dia tocava as melodias da "Marcha do Regimento Preobrazhenski" e "Сomo é glorioso nosso Senhor em Sião" de D.Bortnianski. A "Marcha do Regimento Preobrazhenski" chefiado pessoalmente pelos imperadores passava a idéia do serviço da nobreza ao estado e o hino religioso legitimava a monarquia.

Lamentavelmente a nobreza não era fiel e levou o país para o terceiro "Maidan", para a revolução de 1905-1917.

Em 1917 mais uma vez o tempo parou no Império. O relógio da Torre de São Salvador deu errado por um míssil dos bolcheviques, que estavam tomando o Kremlin. Não é de se estranhar que depois de subir ao poder Lenin adivinhasse: "É necessário que este relógio comece a falar nossa língua". Assim o relógio começou a tocar "A Internacional".

Mas "A Internacional" era pobre demais para ser "nossa língua" - depois de expulsar os demônios da Revolução Stalin, o Grandíssimo quer modificar o relógio para tocar o "Hino da URSS" de 1943. Mas este projeto não deu certo, só tiraram "A Internacional".

Os demônios expulsos por Stalin voltaram com Gorbachov e possuíram Yéltsin. Vocês já entendem que cada vez quando a Rússia entra nos tempos de anarquia, o relógio de São Salvador muda de alma e fala uma língua própria da época. No desenvergonhado período de Yeltsin nosso São Salvador cantava as melodias da ópera "A vida pelo tsar".

Putin acabou com esta zombaria e recuperou o hino estalinista, só mudou a letra (o poeta que escreveu a nova letra "desestalinizada" foi o mesmo senhor que tinha escrito a letra para Stalin) e desde 2000 São Salvador canta para a gente a melodia do hino da URSS, só está proibido pronunciar as palavras. A letra é nova, mas ninguém quer aprendê-la, nem esportistas mesmos. Cantamos baixinho a letra antiga.

Na véspera do Ano Novo 2014 não vamos ver nosso São Salvador. É simbólico que justo nestes dias, quando damos de cara com um enésimo Maidan em nossa história o grupo governante volta a trocar a alma da Torre de São Salvador. Faz umas duas semanas a Torre de São Salvador foi coberta com andaimes. 

Esperamos que se acabe o tempo de um Putin Bonzinho e que comece o tempo de um Putin, o Severo (como foi no caso de Ivã, o Severo, que gobernou o país depois de um desastre da oligarquia e também tinha 2 fases em seu governo. Sua alcunha esta traduzida erroneamente como "o Terrivel" - justo pela característica da segunda fase de seu reinado, quando ele virou "o Severo" para a nobreza).

Esperamos que o carrilhão renovado não comece a cantar "A vida pelo tsar", nem "A Internacional", cujas melodias fundem em "Oh du lieber Augustin".

Acreditamos que a maioria dos russos depois de ouvir 12 golpeias de carrilhão (ele vai ser virtualizado com lazeres) faceemos um desejo comum - o desejo de uma revolução desde cima e não de um golpe orquestrado pelas elites. Depois da Criméia o grupo governante de Putin recebeu um crédito real do povo, mas as taxas de juros são altas e o grupo governante de Putin tem que trabalhar duro para sobreviver. Agora suas vidas e honras como nunca dependem do povo.


Editado por Eduardo Consolo dos Santos

суббота, 27 декабря 2014 г.

Anel de Ouro: Yaroslavl


Yaroslavl, 270 km de Moscou.

Foi uma cidade sumamente importante na época, quando a principal rota comercial da Rússia era "Mar Branco - rio Volga - Mar Cáspio". Naquele tempo, a Rússia ainda não tinha saída para o Mar Báltico. 

Assim pela Rússia os holandêses e inglêses podiam ter os negócios com Pérsia (as famosas tulipas holandêsas são da Pérsia!). E a cidade de Yaroslavl era a capital econômica deste comércio internacional. As igrejas de Yaroslavl tem muitos motivos orientais: os campanários parecem minaretes, as igrejas estão decoradas com azulejos: pela mesma influência persa. São tantas igrejas, que pela abundancia das cúpulas a cidade parece um feixe de rabanetes!

A cidade era tão importante para os negócios, que os estrangeiros nem sempre tinham tempo para visitar Moscou, porque o período da navegação era só de 2 meses. O Mar Branco (pelo qual eles chegaram à Rússia) é chamado assim porque quase sempre está congelado. Agora vocês entendem porque a Rússia desde Ivã IV queria sair para o Mar Báltico e para o Mar Negro? O Mar Branco (ou seja Congelado) não era suficiente! Neste sentido, os bálticos e os poloneses historicamente foram parasitas da economia russa (sendo intermediários desnecessários no negócio entre a Rússia e Europa). Por isso, mesmo hoje estes países limítrofes são tão importantes para os EUA, como uma ferramenta de separação da Europa da Rússia.

O centro histórico de Yaroslavl é considerado como um patrimônio da humanidade pela UNESCO. Embora que o centro não tenha coisas geniais tipo São Basílio da Praça Vermelha de Moscou, tem uma atmosfera provinciana dos prédios de 2 a 3 andares, subidas e baixadas, ruas pequenas, etc. É muito bacana.

Não se esqueçam do rio Volga! É impressionante!

Igual que a história de Yaroslavl: a cidade foi a capital da Rússia na época de revoltas do século XVII, quando Moscou aceitou o poder dos poloneses. Yaroslavl protagonizou a Guerra Civil depois da Revolução Russa e tem muitas histórias para contar!

Aqui tem mais fotos de Yaroslavl em meu grupo de facebook "Moscou em português": 

четверг, 25 декабря 2014 г.

A origem do brasão da Rússia

É curioso o fato de que os eurasianos questionem a versão geral da origem do brasão da Rússia. É que a águia bicéfala aparece nas moedas da Horda de Ouro já no século XIII - deste jeito o símbolo pode ter passado para a Rússia através dos mongóis no século XIII e não dos bizantinos no século XV (como acham os historiadores convencionais).
É possível que os mongóis tenham obtido este símbolo do Império Bizantino, assim como também é verosímil que o símbolo seja originalmente dos mongóis.
Contudo faria sentido que na época da queda simultânea de Constantinopla e da Horda de Ouro o governador da Rússia Ivã III se aproveitasse da situação e oficialmente pegasse o "bastão" da águia bicéfala dos bizantinos, formulando de tal jeito a ideia da Rússia como Terceira Roma, herdeira da Roma e de Constantinopla. A Turquia naquele tempo recebeu dos bizantinos sua lua e estrela (que foram o brasão de Constantinopla).

As primeiras imagens da águia bicéfala vêm do 3º milênio a.C. nas terras do Império Hitita. Há registros mostrando que os hunos também usavam a águia bicéfala em suas bandeiras (séculos II-V).

понедельник, 15 декабря 2014 г.

metrô de Moscou: monumento ao "Super-Homem" Soviético


Todo mundo sabe que o Metrô de Moscou Lenin é o museu mais barato e mais popular da capital russa (cerca de 12 milhões de amantes da arte comparecem ao metrô por dia). A entrada custa menos de US$ 1,00/um dólar e você pode permanecer das 06:00 às 01:30!

Sim, ficamos aqui das 06.00 até a 01.30. É isso mesmo, moramos no metrô! 

Assim, é normal conhecer uns aos outros no metrô para logo se casar. Durante a Grande Guerra Patriótica as mulheres davam à luz no metrô, refugiadas dos bombardeios do fascismo europeu por baixo da terra.

Entre as 200 estações umas 50 são verdadeiras obras de arte que representam o gênio dos povos da URSS e o período heroico dos anos 30-50. O projeto do Metrô de Moscou era um dos principais projetos da industrialização estalinista, igual à Estação Hidroeléctrica Dniépr, a Planta Metalúrgica em Magnitogorsk, MMC Norilsky Nickel, etc. - as empresas que até agora mantêm vivo o espaço pós-soviético. 



Claro, nosso metrô é um templo do "comunismo russo", cujas ideologemas hoje para algumas pessoas podem parecer obsoletas e, pelo contrário, para outras pessoas são super atuais. Ao mesmo tempo é uma obra-prima da arte da engenharia, arquitetura e desenho. Cada decímetro quadrado do metrô é importante por sua mensagem, tudo foi bem pensado: o chão, as paredes, o teto, as lustres, o efeito da iluminação, etc.

Os críticos podem dizer que o metrô de Moscou é clássico demais, coletivista, totalitário (como a igreja) que não vemos aqui nada individual, nada íntimo, romântico, burguês.

Só podemos rir desses vulgares reproches. Por trás de cada mosaico, afresco, estátua está escondida uma tragédia ou anedota. O problema é que seu guia, contratado por uma agência parasita, não tem tempo para lhes contar tais histórias.

Por exemplo na estação "A Praça da Revolução" vemos 76 estátuas de bronze, que representam o desenvolvimento da Revolução Russa dos anos da Primeira Guerra Mundial através da Guerra Civil até o período da reconstrução do estado renovado. Nesta estação a gente supersticiosa costuma tocar o focinho de cão da estatua de um Guarda de Fronteiras, acham que isso pode trazer sorte. Por isso o focinho ficou polido e brilhante e como a maioria dos supersticiosos são estudantes da Universidade Bauman, o cão é conhecido como o cão de Bauman. Bauman é bastante famoso, não vou falar dele.

Quero lhes informar que cada uma das 76 estátuas também tem sua história pessoal!

Assim, para a estátua de um Marinheiro Sinalista posou um tal Olimpii Rudakov, naquele tempo simples marinheiro. Na época da Grande Guerra Patriótica Olimiii Rudakov virou assistente de capitão, mas foi condenado à morte igual a seu capitão por não ter ido embora por último de seu barco durante o naufrágio. A pena de morte foi trocada pelo serviço num batalhão penal da artilharia. Em um ano ele recuperou sua honra e voltou a ascender até asistente de capitão.

Depois da guerra o cara continuava sua carreira e até foi eleito para representar a URSS na cerimônia da coroação da rainha do Reino Unido Isabel II! A anedota diz que o piloto inglês mandado para nosso barco para estacioná-lo no pier estava bêbado. Por isso Olimpii Rudakov rejeitou seus serviços e ancorou seu cruzador a grande velocidade independentemente.

Os ingleses ficaram muito surpreendidos com a habilidade do capitão soviético. Isabel II o condecorou antes de atender aos almirantes de outros países! Alem disso, o escolheu para a primeira dança. O cara era legal!

Igual ao protótipo para a estátua de um estudante, que está lendo um livro. Campeão no salto em altura, Arkadi Guidrat desapareceu durante a guerra, sua mulher até a morte visitava a estação da "Praça da Revolução" para se encontrar com seu marido, trazendo flores e sua filha, que tinha visto seu pai pela última vez, quando tinha 4 anos.

Há pouco a filha do campeão recebeu as notícias oficiais da morte de seu pai. Seu corpo foi encontrado só 59 anos depois de sua morte pelos escavadores entusiastas, perto de Leningrado.

Arkadi Guidrat morreu no inferno das Alturas de Siniávino, protegendo um setor de 10 km, que foi o lugar mais vulnerável da defesa da cidade-herói.

São apenas 2 historias pessoais de uma só estação, imaginem quantas mais temos!